Aquela senhora gorducha

E estava eu confortavelmente sentado quando veio aquela senhora tão gorducha e com ar de chata me dizer que não podia ali estar.
- Minha senhora, isto é uma árvore, porque carga de água eu não poderia estar aqui?
- Não é lógico! Podes muito bem ler no banco do jardim! Não sei porque hás-de estar ai em cima.
Os bancos do jardim eram realmente confortáveis, não o nego, mas não tanto como os ramos em que me encontrava, não hoje, não com um livro de Paulo Coelho aberto sobre o colo... Era um desses dias, era capaz de ficar ali para sempre ou pelo menos até à ultima página, ou até para além dela, caso adormecesse à sombra dos galhos mais altos. Mas aquela senhora de alguma idade parecia decidida a importunar a minha tranquilidade.
- Desculpe minha senhora, com todo o respeito, não tem mais nada que fazer? É que eu não tenciono mesmo sair daqui e estamos a perder o seu tempo e o meu!
- Não... - Respondeu cabisbaixa - Não tenho mais nada que fazer... Os dias passam sempre igual, sem nada de novo, nada de importante. Tens razão meu jovem, não tenho o direito de te fazer perder tempo lá porque o meu não tem importância, muito menos sou dona do jardim para exigir que desças dessa árvore.
A senhora deu de costas e afastava-se a passos largos. Podia ter ficado quieto, podia ter lido o resto do livro em paz, mas o dia parecia agora diferente, parecia triste...
Desci alguns ramos e chamei a senhora.
- Olhe, desculpe! Na verdade também não tenho nada de importante para fazer, talvez me queira fazer companhia.
A senhora voltou-se com os olhos a brilhar e eu preparei-me para descer da árvore.
- Não desças meu jovem, eu própria ficarei aqui em baixo. Tu podes ficar aí em cima e ler o teu livro, basta a presença de alguém para acalmar a minha alma.
Obedeci, deitei-me confortavelmente na árvore e comecei a ler, mas para meu espanto li em voz alta. Li durante toda a tarde sem que a senhora me interrompesse. Cheguei a duvidar que me estivesse a ouvir.
No fim do dia a senhora abraçou-me e disse que tinha sido a maior companhia que tivera em muito tempo.
Mal falámos, nem o seu nome eu sabia, e no entanto passamos uma tarde bastante agradável juntos.
Dias depois a minha avó informou-me que ia a um funeral e pediu-me que a acompanha-se apenas até lá, e que depois me poderia vir embora. Fiz o que ela pediu e apenas por curiosidade fui ver a foto de quem falecera... fora aquela senhora gorducha que me parecera tão chata quando me pediu que descesse da árvore.
Nunca olhei para o nome junto da foto, nunca questionei a minha avó sobre quem morrera, nunca comentei aquela tarde que ficou para sempre na minha memória.

3 Comments:
Existem coisas que no's pro'prios fazemos sem preceber porquê e ja' reparei que se passou isso nessa mesma tarde... Foi agrada'vel, reparei, pore'm na foi nada de mais. Agrada'vel somente... Chegou para uma boa tarde em que 'foste' ouvido, e ao mesmo tempo algue´m se sentiu util e acompanhada por 'te' ouvir.
O texto ta' mt bonito mesmo. Desperta a atençao, consegue transmitir tristeza por o que a senhora disse, por o que aconteceu, mas ao mesmo tempo alegria por ver a felicidade da senhora, por tao pouco.
ta lindo sobrinhoo
bjnhzz da tia Rita
lindo...poderoso
nadi.
fiquei comovida de verdade! como é que existem coisas que á partida parecem tão simples e que afinal não o são. são pequenos momentos especiais. é preciso aproveitá-los.
E sim tu tens um coração!
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