Elai_Razhell@friends

Arrisco usar uma frase do texto "anti-lógica" para nos descrever: somos apenas dois sábios ignorantes que sabemos mais do que desejávamos sem saber o suficiente para sentir saciada a nossa ignorância.

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Sou apenas um sábio ignorante que sabe mais do que desejava sem saber o suficiente para sentir saciada a sua ignorância...

Wednesday, April 11, 2007

Espectro

Este é um poema que já escrevi há alguns anos atrás numa altura em que descrevia na perfeição os meus sentimentos. Caío no esquecimento até recentemente aparecer na minha vida alguém que me faz lembrar o "eu" desses tempos. Procurei nos velhos cadernos e aqui está ele. Escrito numa altura em que eu próprio cambaliava sem alma, dedico-o agora a ela.

Corpo sem alma
Se move com calma
Sem vontade de viver
Sem medo de morrer
Sem vontade de vencer
Sem vontade de lutar
Só lembra o que quer esquecer
Esqueceu o que gostava de lembrar
Um espectro, um sopro, uma chama
Sem sorrisos nem lágrimas para derramar
Um ser que ninguém ama
E sem ninguém para amar

25ºLTC1 (vigésimo quinto livro do tempo capitulo um)

A transcrição de uma passagem de um livro do tempo para outro é proibida, por isso, terei de contar eu mesmo a batalha sucedida. Acredito que em nenhum livro do tempo se contou algo já antes contado mas as circunstâncias a isso o obrigam. Dado o “buraco histórico” a preencher talvez seja conveniente relembrar a batalha que marca o início deste novo livro.

- Não quero ninguém a desanimar! Vamos voltar lá para fora e enfrentar aqueles malditos anjos! – Gritava Karan, rei dos demónios. Sangrava de vários lados e o vermelho do sangue misturava-se com o negro da sua pele nua. Os chifres meio encaracolados para cima surgiam de entre o seu cabelo liso, negro, comprido. A sua face mostrava cansaço, no entanto ainda havia esperança nos seus olhos amarelos. De armadura negra que lhe protegia o tronco, antebraços, juntas das asas, canelas e joelho, e de Tamaki em punho, a lendária espada do rei Feren, rei que reinou no primeiro livro do tempo que derrotou e foi derrotado em simultâneo por Adunim, anjo rei que reinava entretanto. As duas espadas se tornaram lendárias para as duas raças e ambas afirmam que estas estão vivas, mantendo a alma dos seus primeiros controladores e que, por isso, se odeiam.

- Sejamos realistas Karan! Estamos perdidos, talvez os anjos tenham razão, talvez sejamos o mal existente na terra, talvez Riken seja de facto um Deus. – Falava com desanimo um demónio de voz forte maior que o habitual, de chifres pequenos e caninos inferiores avantajados. Segurava um Machado de ar pesado e não possuía armadura.

- É! O Gluhen tem razão! Lutamos uma luta sem saber se estamos correctos... – Falava agora um demónio de voz rouca, magro e de cabelo desgrenhado. Estava sentado no chão acariciando a sua espada fina e longa como se não fosse voltar a usá-la.

Todos os demónios escondidos na caverna começavam a esmorecer, perder as poucas esperanças que lhes restavam. Karan virou costas a todos e dirigiu-se á saída.

- Onde vais? – Perguntou Gluhen.

Karan olhou por cima do ombro para os companheiros, apoiou Tamaki no ombro, a espada não era como as outras, a lâmina grande, trabalhada, cheia de cortes e saliências, o cabo parecia uma armadura preenchida por dentro apenas com um buraco onde colocar a mão. Dizem aqueles que a usaram que o seu interior é orgânico e que rapidamente se adapta à mão do seu controlador uma vez colocada no buraco, tornando-se una com quem a segura. Do lado de fora da espada, um olho abriu-se desde a morte do seu primeiro controlador, um olho real, enorme, sempre alerta, em movimento. – Se vocês decidiram aceitar que somos mesmo uma raça maligna e que aquele impostor é um Deus... Se vocês decidiram aceitar que anjos podem matar as nossas famílias, destruir os nossos lares e considerarem-se senhores do bem... Se acham que lutamos contra o bem e não contra a tirania e racismo de um anjo que se considera Deus... Então não são mais meus companheiros... Dispenso-vos dos serviços do rei. Agora se me dão licença desejo voltar ao campo de batalha e morrer por aquilo em que acredito antes que os anjos nos encontrem e morramos como cobardes, escondidos e encurralados. – Sem mais uma palavra, Karan levantou voo e abandonou a caverna.

Gluhen sentiu as lágrimas correrem-lhe, virou-se e reparou que o mesmo acontecia com os seus companheiros. – Para a guerra demónios! – Gritou, ao que todos responderam em coro “Avarda Guaderra Kerenu-kepati”.

Karan encarou os demónios que vasculhavam a área. – Hei! Carinhas lindas! Por aqui! – Cerca de uma dezena de anjos o perseguiu, estendo as suas belas asas brancas e deixando os seus belos cabelos de cores vivas ao sabor do vento. Karan voava rasteiro subindo uma montanha que conhecia como a palma da sua mão, encontrava-se em território demoníaco o que era uma vantagem pois os anjos nunca tinham voado por esses céus, pelo menos não os que o seguiam. Chegando ao topo, virou-se para os anjos e mergulhou para traz de si, os anjos não hesitaram em mergulhar assim que chegaram ao topo sem sequer olhar para onde se atiravam. Era tarde para voltar, Karan e a dezena de anjos mergulharam numa fornalha de lava...

Gluhen e os outros demónios travavam agora violenta batalha nos céus do inferno (nome dado à terra dos demónios). Possuíam menor número de soldados mas a fúria nos seus corações não os permitia perder.

Um anjo de asas negras surgiu no horizonte, voava vagarosamente. De armadura branca mas mais pesada que a dos restantes anjos e com uma gola alta, larga, metálica. Cabelo também ele branco que terminava em pontas negras, ar jovem e no entanto olhos sábios, cinzentos. Na sua mão direita possuía Djeia, a eterna inimiga de Tamaki. Ao contraio da espada demoníaca era de pega natural, mais comprida mas fina, de ar celestial, com uma pedra branca no cabo. Parecia nunca ter provado sangue, facto que não era verdade.

- Ele vem aí! Onde está Karan? Sem Tamaki não há esperança.

Surgido do alto do conhecido vulcão surgiu Karan na sua forma demoníaca, a pele parecia feita de pedra e estava quebrada, mostrando lava no interior do demónio. – Riken! Vem conhecer a tua morte... Deus.

O anjo de asas negras focou Karan, sorriu e avançou a uma velocidade impressionante. Em segundos estava frente a frente com Karan que tentou atacá-lo, mas Riken era muito mais ágil, facilmente se desviou colocando-se ao lado de Karan dizendo-lhe ao ouvido – É o fim... – Desferiu um poderoso golpe no torço de Karan. Tamaki soltou-se do braço do demónio e o anjo agarrou-a pela lâmina deixando o corpo de Karan cair para a fornalha de lava.

Matem-nos! – Proferiu Riken friamente em quanto voltava costas ao cenário e desaparecia no horizonte.

Os demónios mal podiam acreditar na morte do seu adorado e corajoso rei, mal conseguiam combater, foram dizimados e poucos sobreviveram contando-se entre eles Gluhen.

Aquela senhora gorducha


E estava eu confortavelmente sentado quando veio aquela senhora tão gorducha e com ar de chata me dizer que não podia ali estar.
- Minha senhora, isto é uma árvore, porque carga de água eu não poderia estar aqui?
- Não é lógico! Podes muito bem ler no banco do jardim! Não sei porque hás-de estar ai em cima.
Os bancos do jardim eram realmente confortáveis, não o nego, mas não tanto como os ramos em que me encontrava, não hoje, não com um livro de Paulo Coelho aberto sobre o colo... Era um desses dias, era capaz de ficar ali para sempre ou pelo menos até à ultima página, ou até para além dela, caso adormecesse à sombra dos galhos mais altos. Mas aquela senhora de alguma idade parecia decidida a importunar a minha tranquilidade.
- Desculpe minha senhora, com todo o respeito, não tem mais nada que fazer? É que eu não tenciono mesmo sair daqui e estamos a perder o seu tempo e o meu!
- Não... - Respondeu cabisbaixa - Não tenho mais nada que fazer... Os dias passam sempre igual, sem nada de novo, nada de importante. Tens razão meu jovem, não tenho o direito de te fazer perder tempo lá porque o meu não tem importância, muito menos sou dona do jardim para exigir que desças dessa árvore.
A senhora deu de costas e afastava-se a passos largos. Podia ter ficado quieto, podia ter lido o resto do livro em paz, mas o dia parecia agora diferente, parecia triste...
Desci alguns ramos e chamei a senhora.
- Olhe, desculpe! Na verdade também não tenho nada de importante para fazer, talvez me queira fazer companhia.
A senhora voltou-se com os olhos a brilhar e eu preparei-me para descer da árvore.
- Não desças meu jovem, eu própria ficarei aqui em baixo. Tu podes ficar aí em cima e ler o teu livro, basta a presença de alguém para acalmar a minha alma.
Obedeci, deitei-me confortavelmente na árvore e comecei a ler, mas para meu espanto li em voz alta. Li durante toda a tarde sem que a senhora me interrompesse. Cheguei a duvidar que me estivesse a ouvir.
No fim do dia a senhora abraçou-me e disse que tinha sido a maior companhia que tivera em muito tempo.
Mal falámos, nem o seu nome eu sabia, e no entanto passamos uma tarde bastante agradável juntos.
Dias depois a minha avó informou-me que ia a um funeral e pediu-me que a acompanha-se apenas até lá, e que depois me poderia vir embora. Fiz o que ela pediu e apenas por curiosidade fui ver a foto de quem falecera... fora aquela senhora gorducha que me parecera tão chata quando me pediu que descesse da árvore.
Nunca olhei para o nome junto da foto, nunca questionei a minha avó sobre quem morrera, nunca comentei aquela tarde que ficou para sempre na minha memória.