Elai_Razhell@friends

Arrisco usar uma frase do texto "anti-lógica" para nos descrever: somos apenas dois sábios ignorantes que sabemos mais do que desejávamos sem saber o suficiente para sentir saciada a nossa ignorância.

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Location: Portugal

Sou apenas um sábio ignorante que sabe mais do que desejava sem saber o suficiente para sentir saciada a sua ignorância...

Friday, December 08, 2006

O Sonho

«Onde estou?... Não vejo nada!... Está tudo enevoado… Luzes? … Fogo! … Pequenas fogueiras?... Casas!... Pequenas casas a arder!... Que longe que está o chão… que gritaria é esta?... pessoas?... Em miniatura?... CALEM-SE… PRECISO PENSAR… mal consigo pensar… estão a fugir… de mim?... Mas porquê?... AU! Que foi isto?... Parecem agulhas… que irritante… TENHO DE SAIR DAQUI! CALEM-SE JÁ DISSE! QUE RAIVA! DEIXEM-ME!»
Elai sentia que o raciocínio não fazia parte das suas capacidades no momento, talvez pela raiva que sentia, tinha como desejo único afastar-se daquele lugar. Arrasando dezenas de casas e chacinando um incontável número de pessoas, avançava por entre a cidade a passo de gigante, e em poucos minutos se encontrava fora desta, deixando para trás a sua raiva.
Sentindo agora uma agradável sensação de liberdade, corria pelas planícies que circundavam a cidade. Passados alguns momentos, as árvores que surgiam no seu caminho tornavam-se cada vez mais frequentes, até que entrou numa floresta. Após uma desgastante corrida, Elai deparou-se com um lago calmo que, ao reflectir a luz do sol, emanava um brilho ofuscante que lhe chamava a atenção.
Sentou-se á beira do lago a apreciar as árvores que, apesar de não se lhe apresentarem aos seus olhos de verde e castanho como era costume, mas sim de vários tons de cinzento (como tudo o resto, á excepção do fogo que observara a crepitar minutos antes e do brilho do lago), lhe despertavam a atenção pelo seu reduzido tamanho, não tinham muito mais que a sua altura, facto que, na sua opinião as tornava interessantes. Elai sabia que tudo aquilo era estranho mas não se preocupava em achar a explicação, sentia-se selvagem até mesmo irracional, nunca se sentira assim, tudo lhe parecia mágico, de repente uma árvore tinha mais valor que todo o ouro que alguma vez segurara, não tinha curiosidades nem punha em causa as leis que a natureza lhe impunha, tinha noção do mal que tinha feito ao ter tirado tantas vidas mas, não sentia quaisquer preocupações ou remorsos.
Debruçou-se sobre a água com o intuito de matar a sua sede, porém não chegou a concretizar o pretendido, pois ao observar a superfície da água deparou-se com um reflexo que não era o seu, ainda que estivesse turvo e Elai não conseguisse distinguir qualquer cor, conseguia perceber que aquela era a imagem de uma feroz besta cuja descrição, embora não a conseguisse descrever, estava sem dúvida muito longe de coincidir com a sua. Assustado, desviou o olhar para si mesmo e compreendeu que aquela era realmente a sua imagem, e que o lago não o enganara, ele era a besta, tudo tinha o seu tamanho normal, era ele que estava enorme. Ao tentar gritar apercebeu-se que os sons que emitia eram mais parecidos com um rugido, agora percebia o porquê do pânico instalado na cidade.
Enfurecido, Elai começou a destruir as árvores que contemplara momentos antes. Como é que não percebera antes? Sentia-se confuso, sem saber o que fazer. Entrou na floresta sem destino deixando um rasto de destruição á sua passagem.
Penetrou na densa vegetação e instalou-se no coração da floresta, assim como uma flecha perfura na carne para se instalar no coração humano. O lugar era negro, e as árvores mais altas que as anteriores, e com uma maior carga de folhas que poucos raios de sol podiam penetrar.
Sentia-se só e sem rumo, não sabia para onde ir ou o que fazer, fechou os olhos por um instante como que para meditar e, no momento em que os abriu, as árvores em seu redor emanavam uma estranha luz vermelha enquanto dançavam. Sentiu-se confuso por um momento mas logo se apercebeu que se tratava de fogo, a floresta estava a arder, sentiu o chão sumir-se debaixo dos seus pés, e de repente, o vazio, todo desaparecera, o fogo, a floresta, tudo.
Estava escuro e, no silêncio arrebatador do local, Elai não ouvia mais que a sua respiração ofegante, não sentia mais que o medo... transpirava... o suor passeava-lhe pelo corpo provocando-lhe incómodos arrepios... «EU QUERO MORRER, EU VOU ENLOQUECER»
«Morrerás! Mas não sem antes sofrer pelos teus crimes» uma voz calma e altiva surgira do nada, deixando Elai ainda mais apavorado, sobretudo pelas palavras proferidas.
A misteriosa voz desapareceu dando lugar ao que parecia ser um lamento de uma inteira multidão, um choro arrepiante...
«Este é o choro das tuas vítimas... de todas elas» a vós voltara «sente agora a dor do arrependimento», Elai não imaginara qual seria o “castigo” pelos seus crimes, mas nunca imaginara que fosse tão cruel... Sentia a dor do remorso, dezenas de choros e lamentos de homens, mulheres e até crianças dançavam por entre os seus ouvidos, as lágrimas corriam-lhe rosto a baixo, e a morte parecia ser a única solução.
Ao fechar os olhos sentiu as mãos de suas vítimas que o agarravam e puxavam para baixo afundando-o num fétido mar de cadáveres, porém não lutou, deixou-se ir; por entre choros e lamúrias... aceitou o seu “castigo”.
Contudo, contrariamente ao que Elai pensara, não havia morrido, sentia as mãos a soltá-lo, ouvia cada vez menos lamurias, e o cheiro a morte era substituído por uma agradável maresia .Por fim apenas uma mão lhe tocava e uma última voz doce lhe sussurrava... «acorda dorminhoco».


Elai st

Monotonia

Hoje acordei mal disposto. Fiz o mesmo percurso de sempre, a mesma rotina de sempre, mas hoje isso incomodava-me. Na verdade este tipo (ou qualquer outro) de rotina sempre me incomodou, mas hoje algo me deixava mais pensativo que o costume.
Decidi faltar á primeira aula para espairecer. Mas não resultou em nada, quando voltei para a escola sentia um vazio ainda maior. Evitei os meus amigos durante todo o dia, não me apetecia estar com ninguém.
Voltei para casa á hora de almoçar, e uma vez mais a rotina foi a mesma… as mesmas conversas… os mesmos lugares nas cadeiras como se temêssemos que a mais pequena mudança interferisse no nosso mundo “perfeito”.
Faltei mais uma vez á primeira aula (da tarde), desta vez apenas por preguiça, aproveitei para pensar na mudança, e cheguei á conclusão de que o ser humano a teme. Ainda que não se sinta feliz, ainda que saiba que um dia irá lamentar todas as vezes que não arriscou, o ser humano evita a mudança.
Com este pensamento regressei á escola. A viagem cada vez mais penosa, sempre igual, apenas a minha expressão se alterava, como se a alma me abandonasse a pouco e pouco o corpo… como se a monotonia me matasse.
Na sala de aula, a minha tristeza não passou despercebida, a professora perguntou-me o que se passava comigo. Em vez de responder, perguntei-lhe “quantas vezes já se sentou nessa cadeira? Quantas vezes repetiu as mesmas aulas para turmas diferentes? Quantas vezes pensou em abandonar a rotina mas não o fez?... É feliz?”. Ao contrário do que esperei, a pergunta teve efeito, todos pararam para pensar no assunto por alguns momentos… mas ninguém respondeu. A professora optou por fingir que o episódio nunca tinha acontecido e prosseguiu.
Após este dia lastimável a minha única fuga é mesmo escrever, alivia-me sempre… como se a mágoa se prendesse nas palavras e abandonasse a minha alma, não por completo mas o suficiente para que me sinta de novo preparado para a monotonia.


Elai

Wednesday, December 06, 2006

Feliz Loucura

Seis longos e dolorosos anos se passaram desde a tua morte. Nem por um dia deixei de pensar em ti.
Escrevo agora mais uma carta, que sei que não será entregue, na esperança vã que a dor se prenda ás palavras soltando-se da minha alma. Na minha loucura pude ser feliz... ver-te, tocar-te, sentir-te... no entanto mais ninguém o pôde fazer... nem ver-te, nem ouvir-te, nem reconhecer a tua existência. Se comentasse a tua existência seria um louco, e tu... tu serias “produto da minha imaginação”. Talvez seja verdade, mas enquanto louco fui feliz, enquanto tu exististe, eu vivi, agora na tua ausência morro lentamente. Anseio a tua visita durante os sonhos... ai os sonhos que me permitem ser louco por mais um pouco, louco e feliz por uns momentos mesmo que tenha dificuldade em lembra-me deles.
Nunca te vou perdoar, nunca vou perdoar a covardia da tua morte, a covardia de antecipar o fim iludida pelo facto de “ser melhor para mim viver na ausência de um ser que ameaçava a minha sanidade mental”... Nunca me queixei, nunca preferi ser são... Agora livre da loucura sofro e não tenho refugio... não há refúgio, pois o único que existia abandonou-me e partiu contigo...

Por tudo isso, amo-te e odeio-te... vou sempre odiar-te, vou sempre amar-te!


Elai ft

25º Livro do Tempo

Recordo hoje as palavras daquele que foi sem dúvida o meu ídolo. Argath, meu mestre e mentor, escriba das trevas e muitas vezes chamado de tirano, por mais de uma vez proferiu e me obrigou a repetir a Kuatan dos demónios “Avarda Guaderra Kerenu-kepati”. Percebo agora o seu significado, e estou portanto pronto a seguir o mesmo caminho substituindo-o na sua dura tarefa de relatar todos os eventos, batalhas, e rituais entre demónios e anjos do ponto de vista dos seres das trevas.
Passaram dois séculos desde a morte do mestre, e como partiu antes de tempo, a minha formação não estava pronta. Um pequeno atraso na história contada pelos sagrados livros do tempo terá agora de ser recuperado. Embora continue sem estar preparado, o senhor das trevas começa agora a pressionar o conselho dos escribas e, embora eu seja considerado “um erro do destino” pelo conselho, sou o escolhido e mais ninguém poderá levar a cabo a minha missão. Muito trabalho me espera, pois foram duzentos anos muito ricos em acontecimentos e batalhas que irão alterar para sempre a história do mundo, e embora a história não esteja acabada talvez acabe antes que possa terminar o livro, encontrando assim desfecho para o meu primeiro livro do tempo, que será o vigésimo quinto na história das trevas.
Começarei por falar numa antiga batalha travada no livro do tempo número vinte e quatro...


Elai, Escriba das Terras Insólitas
Livro do Tempo Numero 25 \ Livro do Escriba Numero 1